sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Luar do Meio-Dia


Era já por volta do cair da noite, enquanto a tardezinha ainda acenava distantemente do horizonte para o dia que partia, quando o Sol (já de saída) perguntou à Lua:
- Olá! minha dama! posso saber que vais fazer hoje à noite?
- Ah! vou passear a noite toda com minha amigas, as estrelas, pela cúpula celeste, e tu? Respondeu ela.
- Oh! eu tenho de trabalhar o dia inteiro e, como vês, não posso ficar mais que 24 horas por aqui. Estou de partida já. Aliás, sou eu quem leva o Dia aos lugares deste mundo, por isso, o outro lado me espera.
E assim partiu ele, sorrindo de soslaio, meio encabulado por ter se sentido meio "excluído" dos planos da Lua para aquela noite.
Bastou que o Sol partisse e logo a escuridão noturna caiu sobre aquele lugar. Como se houvesse sido lançado um manto negro sobre a cúpula do céu.
A Lua logo se preparou para subir. Foi se olhando em seu espelho favorito, o Oceano, enquanto se enchia de si, contemplando sua melhor fase naquele período; estava Cheia.
Logo começaram a aparecer por perto os primeiros grupos estelares, da menor e menos brilhante, à maior e mais reluzente estrela do céu. Em seguida, toda a família astronômica estava reunida para mais uma noite de brilho!
Como de costume, de vez em quando apareciam algumas nuvens entre a vista dos namorados que do escurinho contavam estrelas e constelações juntos.
A brisa estava serena e pairava com a tranquilidade de um bebê em sono profundo por sobre a gramínea dançante.
Os riachos continuavam suas marchas ininterruptas. Cantando como sempre a canção das águas que correm.
E lá estava a Lua, a essa hora já no vértex do manto azul escuro, com sua diplomacia romântica a se derramar pelos casais que, de mãos dadas, caminhavam pela orla das praias.
Pensava ela consigo própria:
- Quem dera eu pudesse convidar aquele senhor para vir pra cá um dia... Um dia... Um Di...a!
E suspirou melancólica. Assim ficou pelo resto da madrugada.
Mal sabia ela que não era de ontem que já sentia, em todas as noites, a mesma sensação.
Mas foi justamente no momento da aurora no horizonte que a coisa mais estapafúrdia aconteceu...
De mansinho, lá veio ele a chegar. Levantando-se lentamente por sobre o horizonte. Incendiando as costas dos montes. E tingindo de laranja as bordas da cúpula celeste.
As estrelas já haviam partido, com excessão de uma que ainda insistia (como de costume) a ficar mais um pouquinho a cintilar; era D'alva.
De repente a Lua sentiu, como se previsse os iminentes calafrios que lhe correriam o interior naquele instante, uma sensação que, apesar de ela parecer se esquecer "todas" as noites disto, parecia-lha qual de ja vu.
E o Sol surgiu no horizonte com toda sua chama incandescente. Abrindo seus potentes olhos, contemplou o Luar como se tivesse revigorado as forças da última tarde em que se despedira da Lua e...
Com um olhar que partiu o coração daquela dama...
Disse, como há mais de mil anos diz...
Como há milênios sempre repete, em todas as vezes em que se depara com a partida da Lua:
- Sabe, minha dama. Sei que já estás de partida. E que não fará diferença dizer ou não dizer, eu acho...
Mas eu só queria que soubesses disto, mais uma vez:
- Eu te amo!!!







(...)







E o anil tomou conta de toda a cúpula. E lá se foi a Lua, chorando para o outro lado. Enquanto ele, mais uma vez, repetia para si mesmo:
- Haverão dias para nós!
Dias de Luar!
O Luar do meio-dia!
Posso não ser o Sol-do-meio-Dia....
Mas consigo trazê-la para os meus domínios...
Eu a amo...
E por isso, não ligo se ela se utiliza de minha luz para ser o que é...
Nem me importo se os poetas se utilizam mais dela (para não dizer sempre dela) que de mim para poetizar o amor...
Sei que tenho meu papel prático bem empregado, e é isto que importa agora...
Mas um dia, quer com poesia, quer sem poesia...
O Luar habitará comigo, ainda que por pouco, durante o Meu-Dia!
O Meio-Dia!


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