terça-feira, 6 de abril de 2010

Anestesia Urbana

Já havia duas horas que ele estava ali e continuava ainda estático, olhando pela vitrine. Prateleiras e mais prateleiras se estendiam do chão ao teto. Mostras e mais mostras de artigos relicários habitavam o recinto. E a kataná da esquerda parecia convidá-lo a empunhá-la por um segundo. Bastaria um certeiro e articulado golpe, no lugar certo, e retalharia o que lhe perturbava o coração: Dor.
Assim pensou por um segundo. Mas por que faria isso?
Sabia muito bem que nenhum suicida gostaria de matar a vida dentro de si, mas sim o sofrimento em sua alma. Simplesmente a dor. E assim ele ponderava consigo mesmo enquanto trocava olhares com a lâmina à mostra naquela loja de artefatos usados.

Era uma bela e ensolarada quarta-feira na cidade. Tom havia tirado o dia de folga para caminhar pelas ruas da metrópole e tentar esfriar um pouco a cabeça de seu trabalho.
Gostava muito de coisas antigas, e por isso havia entrado naquele lugar de relíquias.
Mas no fundo, tudo o que ele queria era descanso e paz. Buscava isso há muito tempo e encontrar um lugar para si era sua atual meta. Queria repousar o espírito, se afastar de tanta agitação urbana e relaxar um pouco.
Mas estava ficando cada vez mais cansado. Tomando para si pensamentos obscurecidos pelo estresse cotidiano. Foi gradativamente se ocupando com o pessimisto dos dias. E o sol lhe foi deixando de brilhar no horizonte nos fins de tarde. Também a chuva perdia sua poética e nostálgica mágica de outrora. Isto por causa do anestesiamento que a cidade lhe encrustava à alma. A balbúrdia, a bagunça, a correria, a frieza social, a indiferença humana, a alienação sitêmico-política era realmente como anestesia ao coração.
E assim ele foi afundando num lamaçal de enfados. Conlcluindo que a vida já não poderia oferecer melhor experiência do que aquela em que ele já vivia.
Este é mais um daqueles executivos que passam despercebidos pelas ruas de Belo Horizonte. Minas Gerais. São Paulo. Rio Grande; etc.
Seu nome verdadeiro: Thomas Field. Um veterano da área empresarial. Alguém que maneja tão bem os negócios quanto um samurai a sua espada.
Nunca bebeu, fumou ou praticou qualquer ato criticamente imoral durante sua vida. Sempre foi um bom cidadão. Comum, em muitos atributos. Mas...
Tom não era tão comum quanto se parecia.
...
(continua)

2 comentários:

K. disse...

O caos urbano...
Isso porque vives aí, o que seria de ti se vivesses aqui?
(L)
Estou gostando (do que digita).

K. disse...

O msn disse que não foi. Vai então por aqui:
"Eu sei que com minha aparente frieza não mereço seu latente calor
Mas, enquanto você não descobre que entrou numa fria,
Vivo o mais belo amor - o seu.
É sensível como uma flor
Doce é o nectar
E é bom.
Opa, o que é isso?
Está batendo meu coração
E está forte
É meu
É pra você, amor:
Um floquinho de gelo
Com todo o carinho
Esquenta-o
E sentirá,
Ao fim
A brisa no mar e não estará sozinho."