terça-feira, 25 de maio de 2010

Fantasia, Escape e Consolo

O conto de fadas é um gênero literário que (infelizmente) é legado com ênfase às crianças. Ao lado de bonecas, carrinhos, ursinhos de pelúcia ou chocalhos, por exemplo, também junto destes os contos são assim colocados a par. Diz-se infelizmente porque na realidade não deveria ser assim. Tal arte fora antes uma cultura adulta com funções coletivas diversas.
Como salienta Tolkien, já se ouvira de críticos jocosos sobre contos que agradariam crianças de seis à sessenta anos, mas nunca se ouvira dizer de um carrinho de brinquedo que contivesse tal promessa inscrita na embalagem. E por que será? Por que os contos possuem esta flexibilidade de alcance?
Ainda na linha de raciocínio do autor inglês, os contos de fadas foram relegados ao público infantil assim como a mobília que não tem mais uso numa casa e que fica para a sala de recreação das crianças - pronta para ser tratada como bem quiserem.
O conto de fadas proveio de tradição oral, isto é, pais que contavam para filhos, bardos que narravam para ouvintes diversos em quaisquer tavernas onde se encontrassem.
Tolkien diz ainda que os contos possuem determinadas funções psicológicas para os seres humanos, e enfatiza que as crianças são as que precisam menos de tais funções que os adultos.
Esta observação muito contribui para a análise crítica sobre o padrão de direcionamento observado para os contos de fadas ultimamente. É no aspecto funcional que os contos encontram seu público alvo direcionado e, quebrando o senso comum, mostram que é nos adultos que estes precisam repousar literariamente - uma vez que fantasia, escape e consolo são coisas de que as crianças não precisam tanto quanto nós adultos.
E se é o adulto quem mais necessita de escape, por exemplo, por que direcionar um conto ao alvo infantil que se encontra suprido de escape em seu processo natural de desenvolvimento?
Se é o adulto o ser que se percebe em crise de realidade, é justamente este quem mais necessita de fantasia, e não a criança que já se encontra suprida por seus processos mentalmente naturais de crescimento.

2 comentários:

K. disse...

Baseado na biografia de Tolkien?

Leandro Vieira disse...

Não...
No ensaio mesmo "Sobre Estórias de Fadas"