quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma Esdrúxula Viagem


Ele estava apenas indo para o trabalho. Como sempre o fazia em todas as manhãs de segunda à sexta. Dobrando esquinas, pegando semáforos e avenidas. Era ele e sua motoneta. E naquela segunda-feira, como também de costume, rezava baixinho por dentro do capacete. Pedindo por um bom dia de trabalho, por uma bela e abençoada manhã, por paz. Lembrando-se de ter prometido viver até o dia em que se casaria com sua namorada, pedia também que durasse o espírito em seu corpo até a velhice, e que Deus o livrasse de quaisquer adversidades trágicas no trânsito que se seguia até o local de trabalho.
Mas o inevitável lhe ocorrera, num dado momento em que rezava, ao tentar ultrapassar uma Parati. Esta dobrara à esquerda no momento exato da ultrapassagem. Ele não imaginava tal conversão devido à ausência de sinalização pertinente à atitude do veículo. Foi um segundo e...
Crasch!
Lançava-se ao chão aquele piloto. Rolando pelo asfalto. Ralando-se todo. E parando estirado, mirando o céu. Braços abertos. A dor veio intensa ao ombro direito. A autora do tal acidente viera certificar-se de que estava tudo bem. E segundos após a ambulância já o estava levando para a Santa Casa da cidade.
Lá ele soube do que lhe havia acontecido de pior: uma fratura cravicular nível 2. Rompimento da ligadura.
A cirurgia demorou algumas horas para começar, mas às cinco e meia dera início.
E... aqui começa a viagem.

- Qual é o nome desta injeção?
- É Michael Jackson! Ha ha ha...
E assim a luz se apagou. O mundo virou de cabeça para baixo. E por um período tudo ficara em profundo silêncio.
De repente algo mudou. Uma nova dimensão se me apresentou. E parecia eu flutuar por sobre um mar de luz totalmente cândida. Mas não havia ainda consciência naquela pobre alma.
Meu self se limitava à uma pequena fagulha de consciência a vagar por um infinito cosmos tão brando quanto a luz de nosso astro rei.
E aquilo fora uma verdadeira viagem. Como um ser renascendo renovado. Era uma estranha sensação.

Um comentário:

K. disse...

Ô, meu amor!
Que dia, hein... Acho que seria interessante o relato da viagem - é a melhor parte (se não a única boa) do trágico episódio...
Te amo!