sexta-feira, 30 de julho de 2010

Filosoficamente

Sêneca foi um pensador, romano, tutor de Nero, político, um verdadeiro filósofo. Suas idéias influenciaram diversos pensadores e leitores.
Um dos temas que ele abordou, e que me pareceu intrigante e necessário comentar aqui, foi uma determinada emoção.
Sêneca falou da ira, bem como de sua causa e consequência na sociedade.
A ira provém, segundo o filósofo, de uma dose exacerbada de otimisto depositada nas coisas com as quais as pessoas se relacionam cotidianamente.
Tomemos o exemplo abordado pelo filósofo suíço contemporâneo Alain de Botton, em seu documentário "Filosofia: Um Guia Para a Felicidade", em que ele perfila seis filósofos, dentre eles Sêneca.
Você pode, como fez Botton, perguntar a um motorista de uma empresa de entregas, que dirige durante o dia todo, sobre como é o seu estado de humor durante o trânsito. Provavelmente ele dirá, como o fez para o filósofo suíço, que enfrenta momentos em que se vê xingando, mostrando o dedo ou gritando com as pessoas que cometem violações das leis de trânsito diante de seu veículo.
Sêneca teria dito a este motorista que ele é otimista demais. Que deveria esperar "menos" das pessoas no trânsito. Assim estaria se "preparando" para acontecimentos ruins em seu dia-a-dia.
A idéia senecariana diz que as pessoas se zangam facilmente na proporção em que seus níveis de otimismo são diminuídos pelas decepções.
Isto pode ser entendido como uma lei de equivalência lógico-emocional. Se o indivíduo crê num trânsito perfeito, onde não acontecem acidentes, imprevisões, atrocidades, desatenções e entre outras similaridades, fica totalmente sem chão e, consequentemente, furioso, se sua expectativa (otimista) do trânsito é quebrada.
Não podemos acreditar num mundo onde pessoas não desrespeitem os sinais, não dêem sinalizações, não estacionem na frente de seu portão, etc. Seria infantil e perigoso demais.
Sêneca nos apresenta, a título de ilustração, o fato de sermos semelhantes a um cão com coleira e corrente em que esta se encontra amarrada a uma bicicleta. A bicicleta representa o destino, sina, ou o que se quiser interpretar. O cão representa nossa posição perante o destino. A corrente representa nossa incapacidade de mudar nossa sina, e, por isso, devemos caminhar conforte a necessidade nos impor.
O ciclista decide então pedalar e passear para o norte, o cão, por sua vez, não tem de pensar duas vezes se deve ou não se levantar e começar a acompanhar a bicicleta rumo ao norte (mesmo que em sua volição ele anseie pelo sul). Aliás, mesmo que ele quisesse contrariar a lei da necessidade, criada pelo ciclista que pedala, só seria enforcado e não obteria êxito em lutar contra seu "destino".
Assim, sugere Sêneca, deveríamos enxergar nossa sina terrestre. No entanto temos a razão a nosso favor. Podemos raciocinar, já o cão, não.
E com nossa razão podemos inteligir sobre o que é e o que não é possível de se fazer perante as situações que nos acontecem. E mesmo que não tenhamos o poder de mudar os acontecimentos que nos ocorrem, temos o poder de mudar a forma como reagimos perante o que nos sucede.
Aceitar o que não se pode mudar e mudar como se reage às circunstâncias é, como diz Botton, o que significa ser filosófico.

Gostaria de poder mudar algumas coisas em minha vida. Gostaria de reagir diferentemente perante certos acontecimentos que me ocorrem. Mas não sou filosófico o bastante para escrever um relatório à altura filosófica.
Acho que com tudo o que foi dito até aqui, já é possível fazer uma pequena reflexão sobre as coisas que fazem parte do nosso cotidiano.
Podemos refletir sobre o que podemos e o que não podemos mudar. Mas o foco aqui, é claro, refere-se ao que se "pode" mudar.
Mudemos nossas atitudes impensadas perante a vida.

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