quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Noite da Decidida

- Senhor, o vosso vinho francês.
- Oh! obrigado.
- Vai querer pedir o jantar?
- Oh! não. Ficaremos só no vinho esta noite. Obrigado.
- Fiquem à vontade.
O garçom se retira e os deixa a sós, livres para voltarem à interrompida conversa de antes.
Ele, com olhar compenetrado em sua taça, pergunta novamente o que ela não teve a oportunidade de responder.
- Então, vai mesmo partir? E sorve lentamente o néctar destilado, apreciando-o com condescendência.
- Sim, eu vou! Não tenho escolha contra mim mesma. Sou assim, e pronto.
- Gostaria de dizer uma coisa a você. Nunca disse o quanto é difícil para mim concordar com tuas atitudes aparentemente impensadas, mas... queria que soubesse... te amo mesmo assim!
Tomando a taça pela mão direita, ela sorve, por sua vez, a bebida que cintilava ao sabor das luzes ambientes. O vermelho de seu vestido enamorava-se da cor daquele licor em sua taça, fazendo par com este num só tom de escarlate.
Ela hesitou por um momento, pensando nas palavras, escolhendo-as com a mesma sutileza com que decidira-se por qual roupa vestir para aquela noite tão especial.
Por fim perguntou.
- Você vem? E baixando a taça até a mesa, levantou os olhos e o encarou com enfática curiosidade feminil.
- Adivinhe... Misterioso, ele devolveu por seu turno.
- Não faço a menor idéia do que esteja pensando. E tomando a taça, tragou mais um doce gole.
- Na verdade você até que deveria fazê-la, deixando de negar-te à própria regozijosa imaginação.
- Não entendi.
- Não precisa. Falarei em outras palavras: eu já disse que te amo. Irei contigo a este lugar tão magnífico.
- Mas você disse...
- Shhhhhh!... Eu disse sobre outras coisas. Você sabe. Nós temos nossos motivos para dizer o que dizemos e nos irritar com o que nos irritamos. Mas você pode ter certeza; com você eu posso ser feliz como nunca o fui antes. Posso cavalgar a realidade com as asas da fantasia mais extasiada. Porque já me decidi sobre nós.
Somos assim: a oposição que o vento causa à pipa, que sobe e sobe. Afinal, no fundo, tudo o que eu mais quis era fazer esse tipo de coisa. E agora sei que posso, e vou fazer.
- Então quer dizer...
- Sim! Eu vou contigo, meu amor.
- Nossa, amor...Eu... Eu...!
E ela se levanta ao não se aguentar. Sorrindo como uma criança ao receber seu presente de Natal. E levantando-se, ambos, percorrem o jardim interno do ambiente, próximos ao chafariz com formato de cisne, e ali, de mãos entrelaçadas, seus lábios se tocam lentamente, embriagando-os de vinho, de amor, de sonhos...
A chuva escorria pelo vidro lá fora. Luzes de faróis se moviam para lá e para cá.
Aquela foi a noite da decidida. Decidiram-se. Uma nova aventura os aguardava em...

Dos Super-Heróis

Antigamente, na minha infância e adolescência, os super-heróis eram mais "saudáveis". O que eu quero dizer com isto? Significa que os personagens de quadrinhos e séries de TV apresentavam bons modelos para as crianças como: uma boa conduta moral a ser imitada, lutavam pelos valores da vida, pelo amor, pela honra, pelo bem, pela paz etc.
Hoje em dia nem mesmo a Globo nem o SBT (as mais famosas) transmitem aqueles bons seriados em suas programações matutinas. Mostram, sim, desenhos desmiolados, destituídos de formação moral, não defendem valores de nenhum tipo, atendem apenas ao lado lúdico (e de forma vazia). E se apresentam algum daqueles bons desenhos no meio de suas programações, é meramente insuficiente perante tanta porcaria.
O conteúdo transmitido por nossas transmissoras de TV tem se mostrado decadente no quesito "alimentação da fantasia" infanto juvenil.
Talvez a internet tenha contribuído, em muito, para tal fato. Hoje em dia os jovens querem mesmo é ficar diante de uma tela de computador, zapeando, navegando, batendo papo, assistindo a vídeos no Youtube etc.
E como nas décadas anteriores nós só tínhamos a TV como entretenimento virtual (salvo os video-games), talvez fosse mais fácil "prender" a atenção da juventude através da mesma. Mas hoje a TV disputa com o computador principalmente. E é difícil, uma vez que a internet possibilita a sensação de liberdade de ação, de escolha, enquanto a TV só apresenta aquilo que os organizadores de mídia quiserem transmitir.
O importante, no entanto, é que nossas crianças estão mal supridas de materiais saudáveis em termos de fantasia e escape.
Poderia traçar um paralelo entre o que a mídia moderna mostra e o que os autores de literatura infanto juvenil escrevem ultimamente, mas só confirmaria o que a crise dos super-heróis da TV já nos mostra.
Pergunto sobre o que poderia ser feito, através do governo, dos professores, dos críticos literários, dos filósofos, psicólogos, clérigos, pensadores e leigos em geral, sobre esta questão. Pois parece que a população não se atenta muito à questão da formação do fantástico para as crianças e os jovens.
Se uma criança cresce rodeada de bons heróis, os quais defendem o mundo do mal (e esse sendo não só constituído de monstros, mas também de políticos corruptos e falsos profetas da sociedade), com certeza se transformará num bom adulto futuramente, e quem sabe não se tornará um verdadeiro super-herói para a humanidade crescente.
É nas crianças que depositamos confiança para um futuro "diferente" do nosso presente. E, por isso, não podemos negligenciar que estamos tratando os sonhos infantis com indiferença, pensando apenas em nossos interesses e anseios pessoais.
Cresçamos juntos com os jovens.
Criança feliz = adulto bem sucedido.